Paulo “Luvualu” Portas

Segundo Paulo Portas, ex-líder do CDS, ex-ministro, ex-anti-MPLA e actual sipaio para todo os erviços de sua majestade o rei de Angola, Portugal não deve “explicar aos angolanos como é que eles devem ser angolanos”. Tudo indica que vai, ou já é, ser designado como Luvualu de Carvalho para a Europa e América Latina.

Por Orlando Castro

[dropcap]O[/dropcap] “essencial” – de acordo como ex-líder de grandes militantes do CDS, caso de Jacinto Leite Capelo Rego – não são os atropelos sistemáticos aos direitos humanos, mas sim garantir que Portugal mantém a sua quota de negócios, mesmo que estes sejam pagos com diamantes e petróleo de sangue.

Durante um jantar conferência na Escola de Quadros do CDS-PP (uma espécie de aulas de educação patriótica da JMPA), Paulo Portas deu razão “à escola diplomática que entende que a missão do Estado português é defender os interesses de Portugal” e que “não têm razão os que acham que é uma atribuição de Portugal explicar aos angolanos como é que eles devem ser angolanos”.

Quem viu o Paulinho e quem o vê. Desde que começou a visitar regularmente os seus camaradas do MPLA e prescindiu, pela prática, do uso de vaselina (espécie de gordura mineral extraída do petróleo), ficou mais subserviente ao rei de Angola.

“Esse tempo passou quando o império caiu”, destacou Paulo Portas, reforçando que “quem sabe o futuro dos angolanos, são os angolanos”.

É verdade. Um dia destes, quando o rei Eduardo dos Santos cair, Paulo Portas vai dizer, com a mesma lata, que ele não era bestial mas, isso sim, uma besta. Mas os angolanos, quando isso acontecer, vão mandar Paulo Portas e os seus restantes companheiros e camaradas (entre outros, Cavaco Silva, José Sócrates, Jerónimo de Sousa, António Costa e Passos Coelho) para o seu habitat natural, o chiqueiro onde tanto gostam de chafurdar.

O que preocupa Paulo Portas, tal como mandam as indicações recebidas pelo seu patrono e patrão, não são os atropelos sistemáticos aos direitos humanos por parte do regime ditatorial angolano, já que a missão do reino português passa por defender os seus negócios noutros “mercados e territórios”.

“Concentremo-nos no essencial: se Portugal não tiver uma boa relação com angola os chineses, turcos, franceses, italianos, ingleses, espanhóis vão tomar as posições que Portugal tem em Angola”, deixou claro o ex-vice-primeiro-ministro, ex-líder do CDS, ex-anti-MPLA e actual sipaio para todo os erviços de sua majestade o rei de Angola.

Como bom Luvualu, é perito em tudo

[dropcap]N[/dropcap]o seu papel de Luvualu português, Paulo Portas no dia 12 de Março aos órgãos de soberania portugueses para evitarem “a tendência para a judicialização da relação entre Portugal e Angola”, considerando-a “um caminho sem retorno”, aconselhando a que procurarem “em todas as frentes o compromisso”. Recordam-se?
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“É um apelo dirigido aos órgãos de soberania, porque é deles a atribuição, para terem isto presente, para se lembrarem destes factos, e para, dentro do que a Constituição dispõe e a lei impõe, evitarem a tendência para a judicialização da relação entre Portugal e Angola – esse seria um caminho sem retorno -, e procurarem em todas as frentes o compromisso”, apelou Paulo Portas, na intervenção de despedida da liderança do CDS, perante o 26º Congresso do partido, que decorre em Gondomar (Porto).

O apelo foi feito “com a autoridade que quem trabalhou muito para melhorar as relações com Angola”. “Sabendo que Portugal é importante para os angolanos e que Portugal não está em condições de substituir Angola na sua política externa, pelo número de portugueses que lá vivem e que merecem o nosso respeito, pelas 2 mil empresas que estão em Angola e que merecem a nossa protecção, pelas 10 mil empresas que exportam para Angola e que nós não podemos esquecer, pela interpenetração das duas economias e dos investimentos dos dois países”, disse, a introduzir o apelo.

“Nunca se esqueçam disto: o lugar que Portugal deixar de ocupar em Angola vai ser ocupado por outros países, se calhar pelos países que se empenham discretamente em prejudicar as relações entre Portugal e Angola são exactamente os mesmos que gostariam de nos substituir em Luanda”, declarou o oficioso embaixador itinerante do MPLA, Paulo Portas.

Para Paulo Portas, “o método do compromisso é o que melhores resultados produz naqueles países e Estados que têm em afinidades electivas, e entre Portugal e Angola há afinidades electivas”.

Relembre-se que a investigação da “operação Fizz”, conduzida pelas autoridades judiciárias portuguesas levou à detenção e prisão preventiva de Orlando Figueira, antigo procurador do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).

No mesmo processo, foram ainda constituídos arguidos, o advogado Paulo Blanco, por suspeitas de corrupção activa, e uma entidade colectiva, que oficialmente ainda se desconhece qual é.

Entretanto, fonte ligada ao processo disse que Manuel Vicente (ex-vice-Presidente de Angola), defendido por Paulo Blanco no processo sobre a compra de um apartamento no complexo Estoril-Sol, estaria indiciado por corrupção activa em co-autoria no mesmo caso.

O procurador Orlando Figueira foi responsável, entre outros, pelos processos “BES Angola” e pelo “Caso Banif”, relacionado com capitais angolanos, tendo arquivado este último.

A Universidade do MPLA

[dropcap]A[/dropcap]ntes de, entre outros cargos, Paulo Portas se assumir como Luvualu português, Paulo Portas chegou sempre a Luanda com uma mão vazia e outra sem nada, esperançado – com razão – que o beija-mão daria frutos.

“Angola é uma potência africana e o Presidente José Eduardo dos Santos é um dos líderes africanos mais respeitados e mais experimentados”, enfatizava sempre Paulo Portas. E o processo, pelos vistos, é para continuar. Na sua qualidade de súbdito de sua majestade, Paulo Portas (antes ministro e agora apenas militante do CDS/PP) volta a fazer rasgados elogios, marimbando-se para o facto de – por exemplo – José Eduardo dos Santos estar no poder desde 1979 sem nunca ter sido nominalmente eleito.

Em 2014, era então vice-primeiro-ministro português, veio cá dizer que os bancos centrais de Angola e de Portugal estavam a trabalhar em conjunto na situação no Grupo Espírito Santo e ramificações nos bancos do grupo nos dois países. Em estudo estava – como está sempre – a dose de sabão a usar para um melhor branqueamento.

A posição do governo português foi então transmitida aos jornalistas após uma audiência de quase uma hora entre Paulo Portas e o Presidente da República.

“Eu serei naturalmente discreto sobre essa matéria, mas sempre poderei adiantar que os reguladores de Angola e de Portugal têm trabalhado conjuntamente e eu confio nas medidas de estabilização que saberão encontrar”, afirmou Paulo Portas.

O Banco Espírito Santo detinha 55,71 por cento do BES Angola, instituição bancária que segundo o próprio regulador angolano apresentava problemas na carteira de crédito. Forma simpática e já branqueada de referir as vigarices protagonizadas por altos dignitários do regime, tal como o Folha 8 tem revelado.

Embora sem adiantar o teor da conversa com José Eduardo dos Santos ou a solução técnica para o caso, Paulo Portas disse apenas entender que a articulação em curso é um “sinal com confiança”.

Uma semana antes, o Governador do Banco Nacional de Angola (BNA) admitia existir um “problema” na carteira de crédito do BESA, perspectivando a necessidade de um reforço de capitais.
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“Há um problema nesta altura identificado com a qualidade da carteira de crédito do Banco Espírito Santo [Angola]. Temos operações em situação irregular, operações de crédito malparado”, disse o então governador do BNA, José de Lima Massano.

O Governador foi questionado pelos deputados da Oposição sobre os relatos de um volume de crédito malparado naquele banco que poderia atingir os 5,7 milhões de dólares e que teria sido alvo de cobertura parcial por uma garantia soberana do Estado angolano.

O Governador do BNA explicou que a instituição estava a ultimar a conclusão de uma avaliação à situação daquele banco, mas admitiu um cenário de “reforço dos capitais por parte dessa instituição”, entre outras “recomendações” do regulador angolano para “mitigar as irregularidades e inconformidades detectadas” no BESA.

“Não está em causa nem a garantia dos depósitos constituídos junto do BESA nem as responsabilidades que esse banco tem perante terceiros. E muito menos a estabilidade do nosso sistema financeiro”, disse José de Lima Massano.

Primaveras segundo Luvualu Portas

[dropcap]A[/dropcap]inda não há muito tempo, era então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo “Luvualu” Portas afirmou que Portugal considerava que o fenómeno das “Primaveras Árabes” foi provocado pela asfixia da liberdade e pela falência de regimes autoritários.

Traduzindo as afirmações de Paulo Portas, que têm obviamente leituras diferentes consoante os protagonistas, fica a saber-se que em Angola, embora o regime autoritário de Eduardo dos Santos esteja socialmente falido e a liberdade já nem respire, tudo é diferente.

Embora José Eduardo dos Santos esteja no poder desde 1979, sem nunca ter sido nominalmente eleito, ainda está no galarim dos bestiais e por isso merece toda a confiança, apoio, solidariedade e outras mordomias. Quando passar a besta, então sim, Paulo Portas vai dizer que o regime angolano asfixiava a liberdade.

De facto a liberdade já não respira e o regime angolano é autoritário, para além de desonesto. A liberdade só existe para pensar o que o regime quer, e o regime mostra todo o seu autoritarismo e desonestidade ao querer que os seus súbditos sejam carne para canhão.

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